Sete cegos nas estantes de ferro

Por Brontops Baruq

1

Existe um momento no qual fica claro que podemos ter nossos segredos e não contar tudo a nossos pais. Para Luzia, foi naquela noite, quando terminou de escovar os dentes e pretendia passar na cozinha, desejar boa noite ao pai. Ao escutar o gemido engasgado, a menina reduziu o passo e se espreitou até a guarnição da porta. Dali, espiou o pai sentado, as contas para pagar sobre a mesa e ele no celular, dedos limpando lágrimas e ele no celular, sussurrando com alguém.

A menina deu meia-volta e foi para a sua cama. Bichos de Pelúcia da Vinte e Cinco de Março e uma Bíblia aberta no criado mudo pintado de rosa. Deitou-se, abajur ligado. Sentia-se entre curiosa e culpada por ir sem se despedir, sem saber o motivo, ou com quem era a discussão. Ficou contemplando o teto, as sombras invertidas, a mente absorta, relembrando o dia na escola e à tarde que passou com aqueles guris pichadores. Talvez ela devesse ter contado ao pai. Talvez. Estava com a perna doendo de tanto subir escada.

…ouviu um barulho que a fez se levantar. Cunha, seu pai não estava mais no apartamento, as contas não estavam mais sobre a mesa da cozinha. Testou a porta, estava aberta. Saiu e decidiu seguir o pai.

Quando saiu à rua, já era dia. Apesar disso, podia caminhar tranquilamente, tanto as pessoas quanto seu pai ignoravam sua presença ali no meio da cidade. Aliás, a cidade mesmo estava estranha, lógico que só poderia ser São Paulo, mas algo também sugeria que não. Por exemplo: no lugar da entrada do metrô havia uma esfinge; minaretes e cúpulas no lugar de antenas e prédios.

Por um instante, Luzia perdeu seu pai de vista, em meio à multidão. Quando o reencontrou, Cunha estava vestido de uma forma muito estranha, ela precisou segurar o riso para não chamar sua atenção. Devia ser uma túnica, feito uma daquelas novelas bíblicas da Record. Mas a menina achou que parecia mais um camisolão.

Sentiu pena do pai por um momento. Parecia perdido, talvez bêbado. Perguntava em todos os bares no caminho se ali era a Biblioteca. Luzia estranhou essa estupidez: era óbvio que aqueles botequins, cheios de homens e mulheres seminuas, não poderiam ser Bibliotecas. Bibliotecas têm estantes de ferro e livros fininhos para crianças. Ainda assim, ele insistia, suplicava que lhe dessem atenção até que uma delas- particularmente horrível, uma velha desdentada com coroa de rainha e maquiagem de palhaço – lhe esclareceu:

-Você não soube? A Biblioteca de Alexandria foi destruída quando inventaram a Internet. Construíram o Templo de Salomão no lugar.

2

Existe um momento em que acreditamos que a vida é um trem no qual basta embarcar. A conversa entre as meninas no recreio era sobre quem beijava mais e melhor. Luzia ficou calada, só ouvindo, indecisa se deveria mentir, na dúvida se as outras estariam mentindo. Iara parecia ser a mais franca. Durante muito tempo, treinou com toalhas, na fronha, na dobra entre braço e antebraço, até que convenceu seu irmão caçula a emprestar a boca. As outras fizeram cara de nojo, credo, beijar o irmão. Luzia não sabia o que pensar, não tinha irmão, mas franziu o rosto também para acompanhar a maioria. Iara era o oposto de uma sereia, cara de peixe acima da cintura e curvilínea abaixo, respondeu com um muxoxo, “Eu não tinha opção. Ou será que alguém aqui vai me explicar como se faz?” Janaína topou e depois Edileusa, Rosamaria e Claudete. Luzia também, para não ficar por fora. Combinaram de se encontrar no banheiro no horário da saída. Apenas Luzia, responsável e obediente, apareceu para Iara. Beijaram-se, ela se atrapalhou com os óculos e ainda levou um apertão desajeitado em um dos pequenos seios. Ficou só nisso. Iara disse que era melhor saírem separadas, para não dar na cara com as tiazinhas do corredor.

Luzia obedeceu. Porém, quando abriu a porta do reservado, não era mais no interior da escola, mas sim o Templo de Salomão. Como todos sabem, o Templo de Salomão era dourado e brilhante por fora, com um formato cúbico que lembrava muito a Caixa-Forte do Tio Patinhas. O interior, entretanto, parecia tanto uma ruína quanto uma obra em construção, cheia de andaimes, escadas, estátuas quebradas, gambiarras, cheiro de cimento e penumbra de lugar sem energia elétrica. Lembrava ao Pinheirão.

No interior daquelas paredes havia um ossuário imenso, repleto de esqueletos de todas as raças, cores, credos. Sem os párias e os pecadores, São Paulo havia se tornado uma cidade pura, santa e guerreira, como sugere seu nome. Aproximou-se das paredes e reconheceu dentre aqueles crânios negros, brancos, vermelhos e amarelos, Pai Dedé, Bebel, Janaína, Uriel, Pilha, Renê e outros do edifício invadido. Do meio dos fêmures, retirou um único chinelo. Havia algo de muito triste naquele pé: começou a chorar, mas dona Judite bateu na porta, dizendo que precisava fazer a limpeza do banheiro. Já havia passado da hora de ir embora.

 

3

Existe um momento em sua vida, na qual deve se decidir entre o ninho e o céu. Depois de tomar o esporro do pai por causa de uma tatuagem, trancou-se no quarto e enfiou os fones de ouvido para abafar os berros.

Mas Luzia estava nervosa demais para continuar no quarto. Quis fugir. Abriu a janela do apartamento e pulou para o lado de fora. Quando caiu, reconheceu as colunas e pilastras e o cheiro de cimento. Era a área interna do Templo de Salomão, conforme se lembrava de anos atrás.

No meio da nave central, o sol iluminava um círculo de homens sentados no chão. Eram os patriarcas. De longe, pareciam ser a mesma pessoa, o mesmo traje. Contudo, discutiam raivosamente uns com os outros. Difícil entender o que diziam, não só pelos ecos. Agiam como homens das tavernas, porém – supostamente – eram homens de Deus. Usavam o mesmo livro para justificar atitudes contrárias e excludentes.

Quanto mais debatiam, mais a barba e o cabelo deles cresciam e avolumavam sobre suas cabeças. Dentre esses Bin Ladens, estava o pai de Luzia. Ela se aproximou para tentar distingui-lo dos demais, quando um deles reparou nela e a acusou, dedo apontado.

-Ela é a responsável por nossos problemas, ela é uma pecadora.

Foi quase bonito ver como aqueles selvagens se uniram imediatamente contra o inimigo comum. Luzia passou a fugir sob os pilares e arcos daquela catedral. Os homens gritavam-lhe impropérios e lhe jogavam pedras e merda que eles mesmo cagavam.

Por mais que corresse, Luzia não encontrava escapatória, por todos os lados havia portas trancadas. Uma Kombi abandonada obstruía a última saída. Sem escolha, a garota se enfiou no carro. Dali, Luzia pôde observar que aquela turba havia se convertido em lobisomens, palhaços e serpentes e eles sacudiam violentamente o automóvel. Os para-brisas eram um aquário monstruoso. Luzia começou a gritar e a orar por ajuda.

 

Ela não havia percebido que Samuel estava dentro do carro, bem ali, ao seu lado. “O que você está fazendo aqui?”, quis saber. “Venho aqui para esticar as pernas e desenhar nas paredes.” Os monstros continuaram batendo e o vidro trincou com um golpe. Luz gritou. Samuel abraçou-a e tentou acalmá-la, contando a história de sete cegos que tentavam descrever um animal apenas pelo tato.

Como a historinha não a acalmou, sugeriu que deveria enfrentá-los e não fugir, caso contrário ela nunca seria capaz. A menina respondeu que era impossível, ela jamais conseguiria. Mas o menino insistiu, com uma voz que não era a de um adolescente, mas a de um homem muito velho:

– Você é muito leve, menina, precisa crescer, crescer, só quem cresce pode ter inimigos. Devore-me, coma-me, só assim poderei ajudar.

Indecisa, sem saber por onde começar, Luzia começou pela boca, e de dentro para fora, puxou a língua e depois cuspiu os dentes como se fossem caroços de romã, os lábios arrebentaram e deixaram correr um sumo fresco de uva, e ela continuou puxando pedaço por pedaço do menino. Às vezes sentindo a textura e o sabor de uma fronha, às vezes miolo de pão. Enquanto fazia isso, ficou indecisa, minha mão está entrando nele ou em mim?

Sua barriga e seu corpo incharam rapidamente, um balão inflando, como daquela vez que soltaram um sobre o teto do Pinheirão. Transformou-se em uma fera, um paquiderme, um mastodonte, um mamute. A criatura rompeu a Kombi: o veículo branco quebrou como se fosse um ovo e ela, um pinto. Luzia estava livre. Suas orelhas abriram feito asas e ela girou sobre seus perseguidores em uma dança para pisotear baratas. Esmagou a todos que queriam apedrejá-la, inclusive o próprio pai, reconhecível apenas pelo choro, um gemido engasgado, e por umas contas vencidas que saíam de sua boca.

Samuel comentou que aquela massa de corpos lembrava um desenho do Recruta Zero esmigalhado pelo Sargento Tainha. Luzia não respondeu, nunca lera Recruta Zero. De uma coisa ela tinha certeza, entretanto: naquele cemitério nasceria em breve um campo de trevos irlandeses e ela gostaria de colher alguns.

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Brontops Baruq tem cinco anos de idade e estuda na escola Esquilo Feliz. Psicografa os textos, a partir da incorporação cruzada de dois espíritos que se sucedem em orgia ectoplasmática: Flávia Ticiana, consorte do imperador Pertinax durante o complicado ano de 193 d.C., e Thomas Browne, desertor do Marinha Britânica que viveu na Patagônia do século 19. Gosta de sorvete e é fã da Peppa. 

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Aura de bêbado não tem dono

Por Pnina Bal

O primeiro businnes center 24 horas do país foi inaugurado em São Paulo, no último ano do século 20, contra todas as predições do bug do milênio. Uma verdadeira evolução. Ambiente climatizado, elevadores rapidíssimos, a melhor internet discada, cheiro de café permanente, muitas salas de reunião, máquinas de petiscos e refrigerantes e, o melhor, acesso apenas para carros. Empresas de todo o país disputavam a tapa um escritório no Golden Tower Pinheiros Plaza, lançando mão de todos os artifícios possíveis para ter seu nome estampado no grande hall do edifício.

Nos primeiros cinco anos, o Golden fervilhava de engravatados, saltos altos, motoboys, visitantes ilustres e toda uma fauna corporativa. Tempos depois da grande crise e o Gerente ainda se emociona quando escuta os lampejos de qualquer briga pela ocupação de um ambiente. Se vários telefones tocam ao mesmo tempo, então, é chororô certo. Ele, que começou como um simples analista pleno, galgou rapidamente, com a ajuda de um caro e garantido MBA, o posto de Gerente na empresa de exploração de minérios. Tinha grandes metas traçadas em sessões com um personal coach, responsável por um plano meticuloso para a escalada do 20º ao 45º andar, sede da mineradora. Era o primeiro a chegar e o último a sair, sempre, e não tolerava nenhum colega que, por ventura, resolvesse ir embora no horário acordado em contrato. “Já vai? Pode deixar que se alguém perguntar, aviso que você precisou sair mais cedo”, dizia.

Até 2008, ele era um gerente como qualquer outro, com sua rotina de delegar trabalhos, se enfiar em reuniões intermináveis, tomar mais café do que seu estômago suportaria e se pavonear de não ter vida própria. Até 2008 porque a crise também alcançou os 45 andares do Golden, colocando abaixo negócios, ambições, empáfias, rendas familiares e corações saudáveis. O do Gerente explodiu, vítima de hora extra e fast food, no dia em que o complexo sistema de elevadores parou de funcionar por falta de manutenção.

Anos depois, essa história virou uma lenda no Pinheirão, apelido carinhoso dado pelos novos ocupantes do prédio, e não havia sujeito macho o suficiente disposto a vencer a aposta de subir até o 20º andar. Quando um moleque tava pegando fogo tinha sempre alguém pra lembrar que “O Gerente” pegava criancinha que não obedecia. Por isso, e também pela falta de elevadores, o Pinheirão só tinha morador vivo até o 19º.

No térreo, o antigo paisagismo assinado deu lugar ao Centro de Umbanda Casa de Oxumaré, comandado pelo Pai Dedé de Oxumaré, um anão de origem irlandesa que aportou no Pinheirão com seus gatos e balangandãs, instituindo o sábado como dia de gira. Em pouco tempo, a Casa ficou cheia de gente vinda de toda a parte na esperança de reaver o amor em 7 dias, de tirar olho gordo de vizinho, de ganhar na loteria e até de ver a Portuguesa na série A.

Naquele primeiro sábado de gira, o Pilha acordou, como sempre, virado na cachaça, emborcado na escadaria do Pinheirão. Ainda sem abrir o olho, o bebum oficial do prédio tateou em busca do fiel companheiro, um radinho que já não funcionava há anos, mas que ele jurava que dava o noticiário, com direito à previsão do tempo e tudo. Sem sucesso, abriu os olhos e deu de cara com a molecada zoando horrores e registrando seu desepero com o celular. Protagonista da brincadeira da batata-quente, o radinho passou de mão em mão, subindo andar por andar até o 20º. Quando os moleques gritaram “queimou”, o felizardo se pelando de medo, mas sem coragem de enfrentar a zoação dos outros, se esgueirou pela escada e empurrou o radinho o mais rápido que pôde goela adentro do escritório abandonado.

O Pilha venceu os lances de escada de gatinhas para resgatar seu amigo. Mas, se dizem por aí que cu de bêbado não tem dono, o mesmo pode-se dizer da aura. O homem colocou o radinho no bolso, se empertigou e desceu as escadas reclamando com os meninos das condições em que o prédio se encontrava. “Quanta incompetência! Não acredito que ainda não consertaram esse elevador. Mas eu vou dar um jeito nisso! Preciso chegar ao 45º!”.

Nem é preciso dizer que às vezes o instinto diz muito mais que a razão. Olhos arregalados e pelos eriçados, os meninos começaram a se benzer loucamente antes de ganhar coragem para dar no pé. Como se nada tivesse acontecido, o Pilha chegou ao hall do prédio exigindo falar “com o responsável por essa grande balbúrdia!”. Chamaram a Sol, subsíndica do condomínio, para resolver o pepino. “Mas além de preta é manca?! Veja bem, isso aqui já foi um lugar de prestígio!”, estrilou.

A Sol, que há algum tempo só frequentava o Santo Daime, tinha quilometragem rodada em terreiro de umbanda, conhecia muito bem o Pilha e sacou logo do que se tratava. Com a desculpa de levar o figurão até alguém “mais a sua altura”, fez o bêbado entrar no Centro do Pai Dedé.

Mal sentiu o cheiro do defumo e o homem começou a se retorcer. Com o charuto em uma mão e uma vela acesa na outra, o anão ordenou que o Pilha entrasse num ponto traçado com pemba no chão e rodeado de velas metade brancas metade vermelhas. “Quem é você? Esse homem te deve alguma coisa?”. Imprecações, rezas e pontos se sucediam ritmados pelo ogan da Casa. Em espasmos convulsivos, o homem gritou para parar aquela barafunda. “Sou só um profissional querendo evoluir! Parem com isso!”. “E o que você quer para deixar o cavalo em paz?”. “Que cavalo? Eu só quero saber se fui promovido ao 45º!”. Uma gargalhada vertiginosa tomou conta do  anão. Depois de zombar bastante da pequenez do homem, o Esquerda que comandava a sessão mandou que fossem ao 20º andar procurar o tal documento de promoção.

Encontraram o passaporte para o 45º numa gaveta empoeirada, arrastada por alguns noias para um canto da antiga copinha. Ao ouvir a notícia, o agora Supervisor de Áreas de Extração de Minérios chorou como criança sentada sobre os joelhos. Uma surra de folhas fez com que se engalanasse de novo e se retirasse de nariz em riste.

O Pilha voltou de seja lá qual for o lugar para onde foi, perguntou pelo radinho e pediu para dar um gole da marafa do Esquerda. “Esse aí já tá bom! Vai, homem, escafeda da minha frente!”, vociferou o Exu entre irritado e zombeteiro.

Depois desse imbróglio, os moradores resolveram fechar de vez o 20º, sabe-se lá se por conveniência ou por temor. Certo mesmo é que o Pilha continuou sua maratona de cachaça e de conversas com o radinho, e, dizem, adquiriu uma estranha mania de olhar para o último andar do arranha-céu com um sorriso perdido nos lábios.

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Pnina Bal, desde que sobreviveu ao choque quase mortal de uma raquete elétrica, passou a sentir prazer em ouvir a conversa dos outros. Descobriu, eletrizada, que, quanto menos suspeitos os interlocutores, maior a chance de histórias inusitadas. Dá rasantes em escritórios, salas de professores e filas de banco, sempre com a antena ligada. Sonha publicar um livro de histórias bizarras, mas nem um pouco inventadas.

 

 

 

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A Doida da Berenice

Por Diana Paz

− Mais um dia de calor infernal. Como se não bastasse esse pessoalzinho do cortiço atrapalhando a minha clientela já tão minguada. Bate uma tristeza quando penso que houve um tempo em que vendia revistas importadas, jornais em inglês, tudo encomenda de diretor de empresa e até presidente. Tinha cada secretária elegante que passava por aqui antes de chegar ao trabalho e eu deixava tudo separado, colocava no saco plástico pra não sujar ou amassar as pontas. Está certo que tinha que abrir mais cedo pra arrumar tudo, sete horas da manhã e a banca já estava funcionando, os jornais do dia organizados, as novas revistas no lugar, tudo impecável pra atender uma freguesia exigente! Hoje, abrir às nove está de bom tamanho e posso arrumar tudo durante o dia, quem se importa? As empresas que puderam foram embora para essas avenidas da moda e seus edifícios estilosos, outras faliram. O comércio bom teve que se mudar também, atrás de nova clientela. Eu me descuidei, não percebi a tempo de passar a banca pra frente, enquanto ainda podia conseguir alguém interessado. Agora, quem seria louco pra pegar uma banca assim? Com uma freguesia que só se interessa por revista de dois reais vendida até em supermercado ou que vive querendo parar por aqui e só ficar folheando, sem nada levar. Paciência. Pra piorar, esse povinho da ocupação espanta qualquer freguês com uma certa categoria, sobraram apenas alguns clientes antigos que param o carro, pegam seus jornais ou revistas e saem rápido, nem esperam pra conversarmos um pouco, comentar as últimas notícias, como fazíamos antigamente. Acho até que agem assim com medo de serem abordados por esse pessoal do Pinheirão. Nem posso culpá-los por isso, fazer o quê? − Cunha resmungava seus infortúnios, predizendo mais um dia de vendas minguadas.

“Pronto! Lá vem a doida da Berenice e sua vassoura, todo o dia a mesma coisa, tenho que tocar essa velha maluca daqui.”

− Dona Berê, bom dia. Aqui já está limpo, não precisa mais varrer por aqui, não.

– Esses filhos da puta jogam tudo na rua. Tenho que varrê de novo e de novo. Varri agorinha. Se a dona Luiza passa aqui e vê essa sujera, vai ralhá comigo, é capaz até de me mandá embora. Melhó varrê de novo. Filho da puta!

– Não, dona Berê. Já está limpo. Sua patroa não vai passar por aqui. Vamos combinar o seguinte, a senhora varre a calçada do lado de lá, virando a rua, lá deve estar sujo e precisando da sua vassoura.

– Olha só, bituca de cigarro. Eu sei quem jogô. Foi aquele bêbado que vive bebendo e fumando, fuma feito chaminé. Eu sei, foi ele. Ele vive jogando bituca no chão e sujando o que acabei de varrê. Dona Luiza vai passá e ralhá comigo, pode até me mandá embora. Já me mandaram embora. Trabalhei na casa da dona Ana, boa patroa, mas me mandô embora. Dona Maria não mandô, eu que saí de lá, aquele marido dela não valia um tustão furado, véio safado. Magina se eu ia continuá na casa da dona Maria e aguentá o safado do marido dela? Guentei não, saí – Berenice continuava falando enquanto retirava as folhas velhas e os galhos quebrados da única árvore existente na calçada, que serve de abrigo pra quem aguarda o ônibus em direção a estação de trem.

“Não adianta, vou ter que esperar essa doida varrer novamente a calçada, só assim ela se afasta daqui e vai lá para o outro lado. Imagina se a clientela, que já não é grande coisa, gosta de chegar numa banca e encontrar uma velha maltrapilha que fala sozinha o tempo todo. Conta histórias como se ainda trabalhasse para as ex-patroas e, pelo visto, viveu a vida toda em casa de família. Não posso dizer que cheira mal porque mal ela não cheira, as roupas são velhas, surradas, mas também não vive suja. Acho que à noite, quando está tudo escuro e já não tem ninguém pela rua, ela se banha por aqui mesmo. Vi que fez um balde de um latão de tinta velho, só não sei onde consegue água. Ainda bem que não faz isso durante o dia, imagina se resolvesse se banhar aqui, no meio de todo mundo. Tenho dó, sei muito bem como é ter apenas lembranças passadas, até que elas também se vão e a pessoa vai junto com elas. Foi assim com a minha mãe. Por isso, me seguro pra não tocar essa velha daqui, usando a sua própria vassoura! Só de lembrar a dificuldade que tive pra que ela desistisse de ficar limpando aqui… Como naquela manhã em que cheguei e encontrei tudo impecável, a doida tinha lavado a banca toda por fora.”

– Nossa! O que a senhora está fazendo, dona Berê?

– Já acabei. Lavei tudo, tá limpinha. Um vagabundo filho da puta tava fazendo xixi bem ali. Taquei umas vassorada nas perna dele, puis pra correr à vassorada! Lavei, pra tirá o fedô. Magina se dona Ana passa aqui e sente o chero? Tô na rua na mesma hora. Pedi lá praquela dona e ela me deu um tantinho de desinfetante. Além de fedendo, a banca tava uma sujera só! Agora tá limpinha – Berenice contava tudo sem parar de falar um só instante, cabeça baixa, às vezes apontando e olhando numa direção qualquer, enquanto movimentava a sua vassoura pelo chão de um lado para o outro.

Foi só então que o Cunha se deu conta que nunca sentiu nenhum cheiro estranho ao redor da banca. Começou a desconfiar que Berenice já havia colocado mais gente ou bicho pra correr, debaixo de vassourada. Nesse dia, ele até comprou uma quentinha pra ela, como agradecimento. Só não deixou mais que lavasse a banca porque uma pergunta ficou martelando na sua cabeça, desde esse dia. Onde foi que ela conseguiu água pra fazer tamanha limpeza? É melhor nem saber.

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Diana Paz – Nascida nas águas revoltas em plena quarta-feira, utiliza-se de intuição aguçada para transitar entre passagens de tempo, à procura de entendimento hiperfísico.

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Elefantário

Por Brontops Baruq

África

O ribeirão Manimba parecia um trem.

Suas águas barrentas e escuras não refletiam mais o matagal das margens; agora estavam engrossadas com o sangue de dezenas.  A superfície desaparecera encoberta pelos cadáveres, braços e pernas de homens, mulheres e crianças passeavam rígidos, troncos e galhos levados na corrente. Volta e meia um movimento submerso indicava crocodilos levando algum corpo para o fundo, como quem retira bananas de um cacho.

Mas nada disso ocorreu a Renê. Quem presencia o horror, só sente horror e urgência. Apesar de, na época, ser apenas uma criança, correu para a floresta, onde estavam escondidos os sobreviventes de sua família (Uma vó, dois primos, um irmão). Ele pretendia avisá-los que ali era inseguro, que precisavam continuar a maratona, não podiam mais descansar. Os homens estavam chegando e não havia limite em sua sede.

Não houve chance: enquanto ele corria, seus parentes eram dilacerados a golpe de facão, outros números a desaparecer em meio a estatísticas e relatórios da ONU.

 

Brasil

Às vezes, Samuel pensava que o Congo ficasse em Nárnia ou em Westeros. Um episódio secreto que só se acessa na Deep Web ou até em um livro não publicado, em uma nota de rodapé simultaneamente esquecida por seus bilhares de leitores. Tudo por causa das histórias que Renê lhe contou.

De início, Renê o perseguia. Samuel bem que tentou se livrar daquele negrão esquisito, de olhos vermelhos, mas bem vivos, sem sinal de maconha, sono ou conjuntivite. Alguém supôs que o sujeito fosse haitiano, daqueles que lidavam com vodu. Uriel, irmão mais velho, lhe alertou para ficar atento: vodu não era coisa de jacu, vodu mexia com uns exus brabos, os pretos tomam chuveirada com sangue de galinha, eu sei, já vi, foi em um filme antigo de horror, os caras gostam de pregar o saco na cadeira, fazem zumbis de verdade que nem o Walking Dead. Só coisa nervosa, sinistra.

Renê, indiferente a esse medo, continuou a cerca-lo, coisa que não era difícil, dado que o alvo estava preso em cadeira de rodas. Samuel acabava tendo que atende-lo, mas o português do homem era só sotaque misturado com uns bibibi-bububu (depois descobriu serem palavras em francês).

A despeito dos alertas, Samuel percebeu que o sujeito não era malvado. Havia nele uma espécie de inocência, uma falta de jeito para com as pessoas. Faltava-lhe aquela malandragem ligeira que todo mundo tem ou acha que tem. Não era falta de experiência, de maturidade – até pelo que Renê lhe contou sobre a África – mas uma atitude defensiva de quem começa a jogar sem saber as regras, qual seu time, quem é o árbitro e onde está o gol.

Além disso, percebeu que o homem se aproximava dele com algum interesse claro e evidente.

Samuca era pichador e não grafiteiro, mas – apesar das diferenças – o universo dos dois se contamina e o garoto sabia que havia mais status no desenho do que na tipografia. Assim, em seu caderno, ele se arriscava a fazer umas figuras mais complexas, sabendo que um dia poderia tirar vantagem disso. Certa manhã, o Aleijadinho tentava fazer um elefante-ciborgue, de forma relativamente realista, mas a estranha mistura de peso e leveza da criatura não facilitava. Páginas seguidas de versões de elefantes, um pequeno dicionário de tentativas.

Porém a figura era reconhecível, pois Renê estava atrás acompanhando o esforço e lhe contou quando um elefante furioso invadiu sua aldeia. Destruiu toda a horta e sua família ficou muito triste. Eles haviam pregado vários CDs velhos na cerca ao redor das mandiocas e do milho, diziam que ajudava a espantar o bicho, mas quando ele veio nada deu certo. Os velhos ficaram muito tristes e ele fez um gesto que Samuel conseguiu interpretar como choro.

Aquilo causou algum interesse no menino, jamais havia pensado em elefantes como bravos, mas fazia sentido um bicho tão grande provocar problemas grandes também. O pichador fechou o caderno de cartografia que usava feito moleskine e passaram a conversar sobre a África, sobre o Congo, sobre rios que lembravam trens e trens que lembravam rios, sobre os órfãos e os mortos, sobre os lugares imaginários que existem de verdade.

 

África

O trem para Kwanga parecia um rio.

Sobre o teto dos vagões, dezenas se ajeitavam, aguardando o movimento do comboio. Não havia mais espaço lá dentro, famílias haviam fechado corredores com seus pertences, e muitos passageiros só conseguiam entrar pelas janelas. Renê havia acabado de chegar, sua avó havia lhe falado em procurar uma missão religiosa, qualquer uma serviria, desde que lhes dessem abrigo. Mas ali, diante da movimentação de pessoas ao redor da estação, decidiu seguir com a multidão, como quem se deita e se deixa levar pelas águas. Assim que o trem começou a se movimentar, ele correu e subiu até o alto.

De lá pode ver claramente o aterro criado para que a linha não cedesse à floresta e às tempestades tropicais.  Do alto, pode ver os restos de um antigo acidente ferroviário, o esqueleto de aço sustentando trepadeiras e cipoais, a selva reclamando seu domínio. Ele fechou os olhos e tentou ver outra coisa, mas tudo que surgia no escuro sob a pálpebra eram os mortos, de carne e de aço, boiando, inertes.

 

Brasil

Samuel escutava atentamente, mas entendia muito pouco. De início, pensou que os soldados que atacaram e mataram a família de Renê eram árabes, aquele povo doido e terrorista do Al-Qaeda, mas que quando chegam aqui fazem esfirras e viram político. Ele até mostrou um vídeo que lhe passaram no Whatzap com um negrão sendo decapitado, o homem falava e falava e havia umas legendas em inglês e tchááá os caras alá alá alá, o sangue jorrando que nem mangueira do pescoço e a cabeça do defunto bem diante do celular e o povo alá alá alá. Mas Renê fez que não com a cabeça, esse Boko Haram é Nigéria, não Congo. E o menino pensando, mas não é tudo a mesma coisa?

Depois Renê tentou lhe esclarecer, mas não era fácil, porque mesmo para ele não era claro. Ele poderia falar de Ruanda, do povo massacrado que agora massacrava, dos países vizinhos aproveitando o caos para invadir e roubar o Congo, como se não fosse suficiente ser espoliado pelos seus próprios ditadores. Seria possível entender as chacinas, as mulheres sistematicamente violentadas, a irmã arrebentada, os vilarejos queimados e destruídos? O que havia para entender ali além da loucura? Para Samuel era uma sequência de histórias horríveis, como quem tenta acompanhar uma série de terror obsceno, mas sem saber o que aconteceu nos capítulos anteriores.

Então Renê teve uma ideia para se tornar mais didático. Sabe o seu celular? Você sabe como funciona seu celular? Você acha que é magia? Feitiço? Vodu? Não. Ninguém sabe como ou porque, mas celular usa uns minérios e o Congo está cheio desses minérios… Tântalo, tungstênio, nióbio, ouro…  Então os países ricos se aproveitam da confusão e da guerra para roubar-nos. É isso. Seu celular está cheio de sangue de meus parentes.

Renê supôs que aquilo bastava e se calou. Samuel ficou espantado, olhando para seu celular. Será verdade? Havia uma pedra mágica dentro do aparelho? Será que era assim com toda máquina e computador? Aqueles montes de fios e desenhos de circuitos, aqueles pequenos labirintos como pontos de umbanda, pentagramas misteriosos que trazem o sinal da TV, fazem a gente se ligar na Internet, como as dragon balls ou os pokémons, pedras mágicas fazendo mágica e nós chamando a tudo isso de ciência, como se assim fizesse mais sentido?

Concluiu o Elefante-ciborgue coberto de tatuagens, uma mistura desarmônica de paquiderme, mariposa, polvo, chips, capacitores, válvulas, flechas, cruzes, tridentes e espirais: quimera, exú, cangaceiro e transformer.

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Brontops Baruq tem cinco anos de idade e estuda na escola Esquilo Feliz. Psicografa os textos, a partir da incorporação cruzada de dois espíritos que se sucedem em orgia ectoplasmática: Flávia Ticiana, consorte do imperador Pertinax durante o complicado ano de 193 d.C., e Thomas Browne, desertor do Marinha Britânica que viveu na Patagônia do século 19. Gosta de sorvete e é fã da Peppa. 

 

 

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Malandragem, dá um tempo

Por Francisco Erasmo da Sé

Tentando farejar o anão, o cachorro segue para o terreiro do pai Dedé, buscando desfazer a grande confusão.

Pirata: Caralho, viu? De novo, tô eu atrás daquele viado daquele anão. Ôôô, fila da puta, viu? Não para em lugar nenhum?!?! Preciso descobrir como desfazê essa porra, pô! A cada dia que passa, me sinto mais acostumado com este corpo. Outro dia, acordei louco pra roê um osso que a Sol me deu, às vezes passo a tarde toda na escadaria do Pinheirão, procurando alguém pra me fazê um cafuné atrás das orelhas, e o pior é que já tô até paquerando aquela cadelinha que passa aqui na frente com uma gostosa da academia. Cê é loco, cachoeira?!?! Vou atrás dele de novo. Quem sabe ele tá no terreiro dessa vez? Row, row, row, row. Olha ele aí, maluco cabuloso do caraio!!!

A fúria range os dentes caninos do nosso amigo, ao avistar o Santo pequenino.

Ajudante: Ôôô, Pai Dedé, olha o Pirata aqui no terreiro. Num pode não, né?

Pai Dedé: É, tira ele daqui que os orixás não gostam.

Pirata: Row, row, row, vou porra nenhuma! Row uuu, row, row uuu, row. Vim aqui pra você desfazê a quizumba. Cê vai ter que me dizê o que fizeram com o meu corpo, como eu vou voltá?

Pai Dedé: Tire ele logo daqui… OOOÔO, OOOO… Mizinfi veio tê o que cumigu, mizinfi?

Ajudante: Vixe, valha-me, o Pai Dedé já incorporou, gente.

Preto Véio: Cumé que tu veio querê sabê, pá pará di andá nas quatro pata, mizinfi? Mizinfi, num qué recunhecê qui vosmicê… Foi pior qui cão, quando era minino, enganava os outro, mintia só pá pudê di levà vantage, minzinfi… Buliu com a fia do pastor, ganho foi praga de crente. E essas, mizinfi, são difícil di tirá… Cof, cof, cof…

Pirata: Row, row uuu, row, ô, Preto Véio, mas me ajuda, tem que tê alguma coisa???

Preto Véio: Agora, Mizinfi, cão tem di caçá… Mó di achá o homi dentro do cão. Tem di tomá o chá da nega qui Mizinfi si acunchegá. O chá di índiu, chá qui o santo dá.

Pirata: Row, row, row, row. Brigado, Preto Véio. O Sinhor foi firmeza, viu? E tem até razão nuns bagúio aí que o sinhor disse aí, ó, valeu memo, firmeza memo!!!

Preto Véio: Mizinfi vai vira hôomi, mizinfiii.

Pirata: Vixi, xô, sai fora daqui, ó, mano. O barato ficô loco com o Preto Véio. Mal cheguei já veio me falando os bagúio, ó, truta. Dexa os cara lá, acudi ele lá, ó, vô vazá. Qui será que ele quis dizê com chá e aquelas parada de caçá o homi dentro do cão? E que porra será o chá de nega que ele falou??? Homi dentro do cão, que porra será isso? Sei lá, ó. História sinistra da porra!

Vou pra casa, a Sol já deve tá de volta. Faz tempo que não vejo a Luz. Queria fumá um com ela, mas nem isso eu posso mais, ó. Puta, quem diria que o pai Dedé ia incorporá e me dizê aquelas coisas? Surreal demais!! Mas uma coisa eu entendi, preciso pará de esculhambação! Foi foda minha vida de humano! Fui muito tirado, mas tirei muita gente também. Só o fato de ficá na cadeira o tempo todo, fazendo corpo mole, foi foda! Muita gente me ajudava só por causa disso. Consegui muita coisa assim, talvez tenha sido muita sacanagem memo. Tem que tá veno direitinho. Se segura malandro…”, já dizia o Bezerra.

Com a cabeça feita, Pirata volta para a fonte que o alimenta, a Sol. A mulher que o Pirata não ama, mas respeita, só não tem paciência.

 Sol: Piratinha, já voltou da rua, seu maloqueirinho?

Pirata: Row, row, row. Oi Sol, tudo bem? Tem rango?

Sol: Fica aí, deitadinho, que vou ensaiar mais um pouco aqui no violino e, mais tarde, eu preparo o seu jantar e o meu.

Pirata: Row, hum, fazê o quê, né?

Triiim, TRIIIM, TRRRIIIIMMM

Sol: Alô? Oi, Graça, tudo e você? Hã… Fala, sei. É, faz tempo. Eu preciso ir buscar, menina, bem lembrado. Não, eu também. Vou buscar na semana que vem e te aviso pra gente marcá. Não, eu também tô precisando de um chazinho de índio pra Jesus abrir meus caminhos. E preciso mesmo dedicar mais tempo ao Daime. Andei meio afastada, menina, estudando música, cuidando das coisa do prédio. A gente marca sim, pode deixar. Fica com Deus. Beijo, tchau.

É, Piratinha, faz tempo que tô precisando de um chazinho pra abri os caminho.

Pirata: Huum, row? Num tô acreditando no que eu escutei??? Chazinhho?? Puta que pariu, é isso!!! A Sol toma chá de ayahuasca que nem aquele bróder pichador das antiga, o Du. Uma vez, eu troquei ideia com ele sobre isso, e ele me falou que o barato era coisa de índio e tal, me explicou um lance sobre viajá para um mundo espiritual, dentro de si, pra depois voltá e curá a tribo. O cara era louco, vivia com esses papos espirituais. Muitas vezes nem levei a sério, ó, quem diria que agora iria interessá. Tenho que viajá pra dentro de mim, que viagem! Bom, o negócio é ficá no aguardo desse chá aí, prepará um plano, e depois dar um jeito de tomá essa porra, no melhor estilo cachorro pidão. Ou então no: putz, derrubei sem querer, hehehe. Pode dá certo. “Se segura malandro…”.

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Francisco Erasmo da Sé, dizem os xamãs, é um espírito rebelde e milenar condenado a viver dentro de uma árvore. Após três séculos, foi cortado e esculpido por um artista feiticeiro. Hoje ele vive preso numa carranca, mas, em noites de lua cheia, consegue fugir e ocupar um corpo para escrever contos e poemas, e seduzir esposas.

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Saltos altos

Por Luiz Bras

O aviso chega por zapzap, apenas sete letras, o máximo desabrochando do mínimo, sete pancadinhas na lâmina de cristal líquido, delicados psius que chegam pra arrepiar, sejamos sinceros, um aviso desnecessário, do tipo sádico:

é amanhã

Babel põe de lado o smartphone, se limpa, veste a calcinha só com um dedo, veste a calça e dá descarga, mas o jato de água falha e tudo fica do jeito que estava: marrom avermelhado.

Antes de responder à ameaça, Babel fica admirando a sala desarrumada, a beleza dos badulaques feios, da poeira frouxa nas revistas enjoadas, da luz do crepúsculo, principalmente da luz do crepúsculo na parede, nas retinas de Babel.

não precisa ser assim, ela digita.

A resposta vem rápido:

não estrague o momento, não comece a implorar

Babel se surpreende com a verdade desse pedido, não estrague o momento, ela repete em voz alta, reunindo coragem pra obedecer.

O fim, sempre o fim, do outono, de uma novela, de uma batalha campal ou de uma cirurgia cardíaca, qualquer fim, qualquer epílogo exige firmeza de espírito, numa trincheira ou numa cama de hospital o que a gente mais deseja é não dar vexame.

está certo, não darei vexame, Babel digita.

essa é a minha garota

[ dedo do meio ]

vejo você amanhã, às 18h18

teu gosto pela simetria é impressionante

só tento fazer bem o meu trabalho

Se não há mais escapatória o instinto de sobrevivência é uma maldição, não serve pra nada, foi Samuca quem disse isso, não com essas palavras, mas do jeito torto dele, torto no centro e cheio de arestas na borda.

Não consigo parar de pensar nessa merda, Samuca contou enquanto fumavam um baseado, eu estava subindo a rampa e vi, eu podia ter gritado ou atirado uma pedra, mas não fiz nada, fiquei só assistindo, o gato encurralou o rato e ficou zoando o coitado, uma patada aqui, uma patada ali, triste, muito triste foi ver o desespero do rato, ele guinchava, arreganhava os dentes, e o gatão, porra, o gatão dava risada, o filho da puta tava em transe, fissurado, eu não consigo parar de pensar nisso, na humilhação, entende, na humilhação, morrer já é uma grande merda, agora, morrer debaixo de riso, todo mijado e cagado, porra.

Preciso manter a calma, Babel pensa, depois fala, fala alto, olhando no espelho que também é uma janela, na janela que também é um espelho, você pre, ci, sa manter a calma.

Lá fora o outono concorda com um relâmpago distante, sem trovão.

Babel leva um choque no cerebelo.

The walking dead.

Buceta.

Não vou ver o final.

Game of thrones, buceta, buceta.

Sol envia uma mensagem:

desce aqui, fiz pão de queijo

Novo choque no cerebelo: um dilema, terminar de embalar suas coisas ou descer pra comer pão de queijo, Babel logo percebe a dimensão épica desse impasse e se pergunta, qual é a essência de meu epílogo, é a organização minuciosa de meu testamento ou a digestão de uns pães de queijo com café?

Pega a caixa com as coisas da Sol e sai sem trancar a porta.

O buraco na parede do corredor parece que vai cair lá embaixo, através dele Babel vê Samuca se afastando do Pinheirão, a cadeira de rodas desviando sem pressa das pirâmides de lixo.

O gato e o rato, a garota pensa.

Samuca nem desconfia, mas teve uma vez alucinada, excitante mesmo, em que ela quase foi o gato e o moleque quase foi o rato, estavam sozinhos num papo mole, o baseado acalmava tudo, até o luar no gramado era perfeito e definitivo, mas Sueli e Berenice apareceram no minuto em que a mão finalmente encontrava na sacola o cabo da faca.

Nesse começo de noite Sol está radiante, seu vestido florido, novinho, traz de volta um fragmento urbano da primavera.

O que é isso, ela pergunta pra caixa cheia de bugigangas.

A caixa não fala nada, quem responde é Babel, retirando do amontoado primeiro um colar, eu trouxe pra você.

Teu colar indiano, ficou louca, mulher?

Tem mais, veja só.

Tua pulseira de esmeralda, não tou entendendo nada.

Vou deixar minhas joias e minhas bijuterias com você, cuide bem, ok?

Você vai embora, vai viajar?

Vou, mas chega de conversa fiada, cadê o café?

Senta aí, vou trazer, mas pode cantar direitinho essa história, vai viajar pra onde, assim, de repente?

Você ainda não viu nada, olhe no fundo da caixa, embaixo da flanela.

Babel, Babel.

(Sorrisinho.)

Ca, ra, lho.

(Sorrisinho meio triste.)

Tá de brincadeira, né?

Cuide muito bem dele, hein, você sabe que minha mãe tinha o maior xodó por esse violino.

Sem plateia nem banda nem aplauso, a mágica do desaparecimento do café e dos pães de queijo avança e se completa ao som apenas das perguntas insistentes e das evasivas resistentes.

Sol traz a garrafa de conhaque, Babel fala de sua infância, esticam o corpo no sofá, os pés descalços de uma rente à orelha da outra.

Acendem um baseado, dão boas risadas, Sol faz chamego no violino, Babel volta tarde pra casa.

É preciso organizar as últimas caixas, as menores.

É preciso arrumar a pequena herança do René e a da Sueli.

Também a herança do Pilha e, é claro, a do Pirata, uma bonequinha de pano.

Ninguém pode ser esquecido, as auras esbarraram e se contaminaram bonito no Pinheirão, de um jeito ou de outro todos foram importantes, até mesmo o calhorda do Cunha.

Está decidido, pro cu do Cunha vou deixar o vibrador.

Caixas organizadas, dentes escovados, Babel se prepara pra cair na cama quando chega uma nova mensagem:

tá acordada?

exausta, indo pra cama

surgiu um probleminha aqui

ficou sem viagra?

tudo bem se a gente antecipar nosso encontro pras 8h18?

é piada?

sei que o número não é tão simétrico, mas, na verdade, não foi uma pergunta

vai me roubar dez horas, você tá zoando, né?

a gente se vê às 8h18, um beijo

filho da puta

Babel boceja.

O dia já vai raiar, não vale mais a pena cair na cama.

A leitura preguiçosa de um livro indolente, não, a faxina indolente de um sábado preguiçoso, não, os mil telefonemas sempre adiados, sempre preguiçosos, pra parentes sempre indolentes, nem pensar, não vale mais a pena começar nada.

A roupa já está escolhida há meses, a roupa perfeita para o dia mais odiado.

O local também já está escolhido há séculos: a pracinha da quaresmeira-roxa.

Babel toma um longo banho frio, precisava sentir o corpo em chamas, não economiza no creme, não economiza na maquiagem, surpreende-se com a própria calma, zen total, quem diria, hein, dona Babel, quem diria que você estaria em paz, equilibradíssima nesses saltos altos que você escolheu com tanto cuidado para o encontro mais importante de sua vida.

+ + +

Luiz Bras não tem endereço ou emprego tediosos. Mora num filme de Kurosawa. Trabalha numa pintura de Bosch. Nos feriados santos, transita, em transe, entre o ontem e o amanhã. Dois anos atrás, formou-se por correspondência na difícil arte de hipnotizar angorás e sabiás.

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Zero zero nada

Por Talita Bordas

Das sete e trinta e três de uma manhã garoenta às doze horas, onze minutos e onze segundos de uma tarde abafada. A porta giratória rodava sem parar. A cada giro, o estalo do alumínio somava pontos à empreitada. A ocupação deve ter começado numa terça ou quarta. Aparentemente, findou num sábado. Um sábado não se sabe qual.

As horas, sim, são conhecidas exatas marcadas sublinhadas rabiscadas em negrito no livro de registro de Sueli.

Ela foi a primeira. Atravessou às sete e trinta e três, a primeira de mil novecentos e noventa e nove habitantes. Eram doze e onze e onze quando o ‘plá’ da porta do último morador, um homem com pinta de doutor das leis. Ele não importava, o homem com pinta de doutor das leis não importava. Nem a pinta, nem o terno, nem o homem, nem as leis. O ‘plá’ da porta tampouco. A questão era o momento.

O almofadinha quase finalizou a roleta de vidro às onze e cinquenta e nove minutos virando justamente para às doze zero zero. O doze zero zero derradeiro. O zero zero zero zero infinito em segundos no gabarito redondo de Sueli. A cabecinha multiplicadora da ativista não deu conta.

─ O que você quer aqui, arrumadinho? ─ disse, travando o homem diante da porta.

Um, dois, três, quatro.

─ Não tenho onde morar.

Cinco, seis, sete, oito.

─ Não tem família?

Nove, dez, onze, doze.

─ Não sou daqui.

Treze, quatorze, quinze, dezesseis, e ela interrogou o cara até contar pouco mais de onze minutos. Pronto, estavam seguros. Sueli sorriu na diagonal e liberou a entrada, finalizando a equação em doze horas, onze minutos e onze segundos, número registrado sem zero algum.

Subtraíram-se semanas desde que Sueli ouviu falar pela primeira vez do Golden Tower Pinheiro´s Plaza. Aos pés de um prédinho adoentado no Largo da Batata, uma jornalista tatuada vomitava discursos prontos sobre política, polícia, paridades e perversidades. A garota irritava Sueli. Percebia-se pela boca da ativista, envergada para baixo, quase parindo um empurrão, um pontapé ou qualquer tapa desgovernado. A sorte da jornalistazinha estava nas palavras Golden Tower Pinheiro’s Plaza. Eram quatro e não cinco. Quatro entre tantas sentenças e interjeições. Aquele edifício espelhado abandonado e ridículo na beira da Marginal encafifou Sueli. Uma frase inteira com sete palavras devia ser sorte ímpar. Interrompeu a entrevista educadamente e pegou um ônibus na Faria Lima. Um não, o terceiro, mas especificamente.

Na Marginal, quando viu o Pinheirão, se deu conta. Sobreviveria. Somou quarenta e cinco andares, o que era um problema. Não gostava de cincos. Multiplicou, somou, dividiu andares, salas, degraus. O cinco teimava com ela, uma tristeza. Mas, uma saleta com vista interna para o edifício pintou timidamente. Era ela que fazia todas as equações todas resultarem em três, felizmente.

Assim, Sueli saiu à caça. Visitou exatas doze ocupações. Anotava o nome, a idade e a profissão dos selecionados. Em troca, a promessa de um paraíso vertical em uma ficha com endereço, andar e número de sala. Montou famílias, uniu casais, separou desafetos, buscou diversão em uma professora de dança manca e um ex-artista de circo, atirador de facas. A fé dividiu entre um pastor evangélico e uma gira de umbanda comandada por Pai Dedé de Oxumaré, um anão ruivo de origem irlandesa. Sueli deu de ombros à maluquice de um anão irlandês ser pai de santo no Brasil. Intrigou mesmo foi com sua idade.

─ Cento e oitenta anos? Ele não entra! ─ disse ao assistente do anão.

─ Mas ele tem uma saúde de ferro ─ comentava quando foi interrompido pelo próprio.

─ Um pouco mais de cento e oitenta anos ─ esclareceu Pai Dedé, surgindo pequeno e misterioso do fundo do corredor.

─ Exato quantos? Cento e oitenta e cinco? ─ desafiou Sueli.

─ Pouco menos.

─ Ok, toma sua ficha.

Idosos no térreo, casais nas alturas, o recheio de famílias e crianças. A ponta do lápis fechava perfeitos mil novecentos e noventa e oito moradores cadastrados e organizados. O homem esquisito com cara de advogado era o nove nove do Pinheirão, restando apenas um número para o zero zero. Um perigo! Mas uma jovem estava grávida de gêmeos, e não morava ninguém velho demais ou doente, ninguém perto da morte, enfim. Em poucos meses, os bebês nasceriam e o risco sumiria. Tudo certo, somado e quebrado. Zero zero nada.

Havia no entretanto do acaso um alguém. Ainda muito jovem, ainda muito franzina, ainda muito em rodeios na porta giratória. Farejava o edifício com olhos frescos, como quem pressente carne boa escondida no fundo do açougue. No caixa da banca de jornal defronte ao Pinheirão, Luzia não passava dos quinze. O nome era adulto. Seu pai, Cunha, queria uma filha responsável. Às sete da manhã, abandonava a mocinha na banca e resgatava-a ao meio dia, a tempo de almoço e escola. Luzia testemunhou a ocupação acontecer. O mundaréu de gente no pátio com mochilas, colchões e sacos plásticos a enchia de curiosidade. Um deles veio prosear. Era um anão ruivo, que quis logo saber seu nome. ─ Luzia é luz! ─ disse com uma leve piscadela, convidando-a a conhecer seu futuro terreiro.

A menina não faltava a uma única sessão de descarrego da igreja que ia com a família. ─ Essa pega o demônio à unha! ─ orgulhava-se o pai diante de tamanha devoção. O pobre diabo nunca ouviu a conversa da garota com as almas. Não havia nada amarrado, ela queria era notícias do outro lado. As vezes em que mandava o mal embora, na verdade se despedia cortesmente do viajante. Não havia, portanto, estranheza em aceitar o convite do anão, tampouco, em omitir o bate-papo do pai.

Duas semanas e quatorze piscadas furtivas de Pai Dedé depois, Luzia se entregou ao Pinheirão. O que não fez diferença a quase ninguém, a não ser à própria Luzia, ao Pai Dedé e, claro, à Sueli. A ativista contava e recontava os moradores. Com a menina ali, era sempre o dois zero zero zero que dava.

Coincidência ou não, Seu Cunha ameaçou denunciar a ocupação. Dali em diante, a polícia aparecia constantemente. Com pouco dinheiro e muita lábia dos moradores, as autoridades sumiam um tempo, mas só até o um nove zero ser digitado em um celular dentro da banquinha.

No sétimo dia do mês sete, o terreiro subiu em festa para o quadragésimo quarto nível. Eram brindes e oferendas a exus e pombagiras. As luzes desligadas, blackout total, viam-se apenas sussurros e tambores. Era a oportunidade de Sueli. O som, o calor, o cheiro, o suor hipnotizavam todos. Na primeira risada estridente do ponto da pombagira, Luzia foi tomar ar no janelão. Com as mãos levantadas, os braços flexionados, Sueli ganhou impulso: um, dois, três, quatro ─ passos fortes e bem espaçados ─ cinco, seis, sete, oito, nove ─ agora praticamente corria, como uma bala certeira na direção de Luzia.

Contudo, a síndica do Pinheirão deu o décimo passo. A culpa podia ser do calor, da altura, talvez do destino… O acaso faz presença mesmo nos caminhos mais certeiros. E, para o pesadelo do pai Cunha e alegria do pai Dedé, tinha pombagira dentro de Luzia. Girando uma única vez, ela desviou de Sueli, que empurrou o ar e seguiu pela janela. A danada da pombagira ainda ria girava ria girava quando a ativista iniciou a contagem dos segundos até ao chão.

+ + +

Talita Bordas é um exemplar da geração millenium que escreve cópias televisivas das obras artísticas de Lily Briscoe. Duas ou três vezes, foi flagrada com braços e pernas sapecados por entrar pela janela em eventos literários. Em todas as vezes, ela tinha convite, mas provavelmente esqueceu no carro, que está perdido dentro do estacionamento de um shopping desde 2013. 

 

 

 

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